ANTOLOGIA
UBALDIANA - 7
por
Pietro Ubaldi
Escrita na Noite de Quinta-feira Santa, no Monte de Santo Sepulcro, diante de Verna (Páscoa de 1943).
Minha última mensagem, pela Páscoa de 1933, XIX Centenário da morte de Cristo, dirigida, em dois momentos aos Cristãos e aos homens de boa vontade, foi minha derradeira palavra naquele ciclo de preparação e esperança.
Já se encontram amadurecidos muitos acontecimentos ali
preanunciados.
Até junto de vós retorno, nesta Páscoa de 1943, após dez anos, na
violenta constrição de uma dor que parecia impossível e, no entanto, se
tornou realidade; venho trazer conforto aos homens e aos justos, aqueles
que creem. Venho dizer, no seio tumultuoso da destruição universal, a
equilibrada palavra de paz. É esta, por isso, a mensagem da paz.
Tende fé e a fé vos fará superar todas as provas. Deus as permite
para que aprendais a usar de vossa liberdade e não para vossa destruição.
Não vos desgarreis no caos, que é só aparente. Imersos como estais no
pormenor, na aflição, na fadiga, não enxergais e não compreendeis o bem
que existe além da aparência do mal.
Deus, no entanto, invisível e onipresente, está ao vosso lado,
caminha convosco, acompanha os vossos passos e vos guia; sempre vos provê,
além da aparente desordem, com a ordem imensa e eterna de Suas sábias
leis. Sua mão se inclina para o humilde, para o fraco, para o vencido, a
fim de erguê-lo de novo. Que vos conforte esta afirmação de uma divina lei
de justiça acima da lei humana da força.
Diante de dois caminhos vos deixei e fizestes a escolha. O mundo
tem a prova que livremente desejou.
Desde que vos deixei, o mundo tem percorrido velozmente o caminho
da História. O mais profundo caminho e a mais proveitosa lição se
encontram na dor, escola e sanção de Deus.
Repousareis.
Assim é necessário, a fim de que os resultados do esforço desçam
em profundidade e sejam assimilados. Não vos detenhais, no entanto, nos
pormenores do momento ou do caso particular, que não constituem toda a
vida. Esta se encontra nas grandes trajetórias de desenvolvimento da Lei,
em que se exprime o pensamento de Deus.
Somente se vos elevardes encontrareis a verdade universal, imóvel
no movimento, a justiça perfeita. Somente se vos
transportardes acima das contingências do momento e do lugar, achareis a
completa liberdade, a tranquilidade do absoluto, a paz que está acima da
vitória ou da derrota, a verdadeira paz, tão distante das coisas humanas.
Elevar-se é a grande meta da vida — elevar-se pelos caminhos do
espírito — e esse trabalho, sempre possível e livre, pode ser seguido e
levado a termo, em qualquer época ou lugar. Ninguém, em nenhum caso, pode
tolher a liberdade de vos construirdes a vós mesmos, avançando assim em
qualidade e poder. E esta ascese é o que mais importa; é para atingi-la
que sofreis as provas da vida.
Após cada curva da História, obtém-se seu sumo, sua verdadeira
colheita, que é a ascensão.
As verdadeiras riquezas não se encontram fora de vós: estão em
vosso íntimo e são elas que vos fazem mais poderosos e felizes. São os
vossos bons predicados, que nunca se perderão; e não vossas posses
materiais, que hão de desaparecer.
Qualquer que seja o turno de vencedores ou vencidos,
suceder-se-ão, como vaga após vaga, as multidões dos que sofrem e dos que
gozam; e o triunfo pode ser instrumento de perdição e a desventura, de
ressurreição. Nenhuma vida, como nenhuma força, pode ser anulada; tudo
sobrevive, transformando-se. Substancialmente, a guerra a ninguém
destrói.
Minha palavra, que está acima do mundo e de suas lutas, diz,
repetindo a lei de Deus que rege a vida: ai de quem possuindo apenas a
superioridade da força, dela abusa, esquecendo a justiça. Tudo é
compensado na Lei e se paga com longas reações sucessivas, de ódios e
vinganças.
A palavra do equilíbrio ensina ao vencedor que não é lícito abusar
da vitória, pois, por isso, se paga; e indica ao vencido os caminhos do
espírito, em cuja liberdade é possível restaurar as próprias forças em
face de qualquer escravidão exterior. O primeiro acomete as fronteiras
naturais da força, o segundo nas privações encontra a liberdade.
Voltará o sol a brilhar e a vida florescerá de novo, após a
tempestade. É lei de equilíbrio. O que importa, sobretudo, é que aprendais
a lição. Recordai: que cada um guarde, na profundeza do espírito, com o
poder de uma convicção, de uma qualidade adquirida, o fruto de tantas
provações. E que a nova floração da vida não irrompa numa algazarra louca de carne
satisfeita, numa orgia de matéria triunfante.
O escopo da guerra e o conteúdo da vitória não se acham no triunfo
material, mas num triunfo no espírito, numa nova civilização.
Ai de vós, se não houverdes aprendido a dura lição e não mudardes
de roteiro. Se, em vez de subirdes pelos caminhos do espírito, voltardes a
palmilhar as velhas estradas, haveis de recair sob as mesmas dolorosas
consequências, cada vez mais graves.
Minha voz é universal e se desvia das dissensões humanas. Tem, as
vezes, no entanto, necessidade de descer. Diz-se, então com escândalo:
Deus é parcial. Mas existe uma balança, um reflexo de justiça, uma ordem
também na História e nela devem atuar. A imparcialidade absoluta seria
indiferença e ausência de Deus. A justiça e a ordem, que são os princípios
do ser, devem descer também à Terra e aí operar, pesando sobre o mal e vencendo-o,
no choque das forças.
De outro modo, Deus estaria somente no céu, e não presente e ativo
também no mundo, entre vós, no meio de vossas lutas. Estas são guiadas por
Ele, a afim de que não se reduzam a absoluta destruição e caos, mas sejam
instrumento de construção e de bem. Ele os guia para que as provas e as
dores do mundo redundem no fruto que é a ascensão de espírito, objetivo de
vida.
Deixo-vos, por isso, para conforto dos justos, estas verdades: o
vosso esforço, mesmo que não possa ser senão individual e isolado, quando
é puro e sincero e se dirige ao supremo escopo da elevação espiritual,
também se encontra na trajetória da vida. E, por isso, protegido e
encorajado, porque essa é a trajetória ordenada pela lei de Deus. Por essa mesma
lei, segundo a qual o Universo está construído e que lhe regula o funcionamento orgânico,
as forças do mal, embora todas as dificuldades e resistências, jamais poderão prevalecer
sobre as forças do bem.
É fatal, pois, o triunfo final do espírito e no espírito
vencereis. Essa vitória vale a imensa dor que é seu preço.
Amplamente já está sendo executado o plano divino da vida.
(Pietro Ubaldi, “Grandes Mensagens”)
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