Kardec e
Roustaing
por Indalício Mendes Reformador (FEB) Maio 1943
É este o artigo:
........................................................................................................
“... 23. "Rejeita as questões
absurdas e desassisadas
(sem
juízo), sabendo que
elas provocam
brigas, 24. Ora, o servo do Senhor não deve
brigar, mas deve ser condescendente para com todos, capaz de ensinar, sofrido;
25, que corrija com mansidão aos que se opõem, na esperança de que Deus lhes
conceda o arrependimento para conhecerem a verdade.” - (Segunda Epístola de
Paulo a Timóteo, cap. 2, versículo cit.)
Nunca se viu tanto apego à polêmica,
nas fileiras do Espiritismo, porque também nunca se observara tamanho
desconhecimento da doutrina, nem tão lata ignorância das lições de amor e
humildade que refulgem nas páginas piedosas dos Evangelhos.
Urge que os “soi-disant” (supostamente) espíritas se compenetrem de seus
deveres em face da doutrina do Espiritismo, que é toda amor, toda humildade,
toda paz, toda caridade, enfim. Colocam-se fora dela - e contra ela,
concomitantemente - aqueles que, em vez de empregarem esforços para praticá-la
e difundi-la conscientemente, realizam espúria tarefa, empenhando-se em
contendas fúteis e provocando situações malsãs, muito do agrado dos
irreconciliáveis inimigos da Terceira Revelação.
Está em moda combater J. B. Roustaing e “Os Quatro
Evangelhos...” Perde-se, semeando a discórdia no meio espírita, valioso tempo
que poderia estar sendo proficuamente utilizado na evangelização daqueles que
tanto necessitam de amparo doutrinário. Entretanto, Allan Kardec, homem
superiormente equilibrado, cioso da enorme responsabilidade, que assumira em
face da humanidade contemporânea, do seu trabalho gigantesco, não anatematizou (contestou) a obra de Roustaing ainda que se
manifestasse a respeito dela com indisfarçável prudência. Ele próprio escrevera
na “Revue Spirite”: “Estas observações,
subordinadas à sanção do futuro, em nada diminuem a importância da obra, que,
de par com algumas coisas duvidosas, segundo o nosso ponto de vista, outras
contém incontestavelmente boas e verdadeiras e será consultada com proveito
pelos espíritas conscienciosos".
Kardec, no trecho transcrito, ressalvou até que os
"espíritas conscienciosos” consultariam
com proveito a dita obra. E, quanto às restrições que fizera, provinham de sua
opinião pessoal, tanto que lá está – “de
par com algumas coisas duvidosas, segundo o nosso ponto de vista”. Tanto
ele prezou “Os Quatro Evangelhos” que se preocupou com a forma material da
obra, ao ponderar inequivocamente: “No
nosso parecer, se, limitando-se ao estritamente necessário, houvera reduzido a obra a dois ou mesmo a um
só volume, ela ganhara em popularidade”. É obvio que Allan Kardec pouco se importaria com a
popularidade de "Os Quatro Evangelhos", se não estivesse convencido
de sua utilidade para os estudos dos "espíritas conscienciosos”. É claro
também que, não obstante a grande autoridade moral e intelectual do
codificador, não se podem considerar todas as suas opiniões pessoais como que
forradas de infalibilidade.
Consideremos ainda o fato dele ter
lealmente confessado: “O autor desta nova obra julgou dever seguir outra
orientação: em lugar de proceder gradativamente, quis de um salto atingir o
fim. Assim é que tratou de certas questões que AINDA NÃO JULGARAMOS OPORTUNO
ABORDAR e a respeito das quais, portanto, lhe deixamos a responsabilidade,
assim como aos Espíritos que as comentaram".
Devemos olhar para Kardec e
Roustaing com “olhos cristãos”, isto
é, reconhecendo o valor do trabalho realizado por um e outro, porque ambos
contribuíram para a elucidação dos Evangelhos. Kardec foi o grande pioneiro, o
desbravador destemeroso que enfrentou as furiosas arremetidas do preconceito
religioso do século XIX. Coube-lhe abrir o caminho para o esclarecimento
espiritual da humanidade, permitindo-lhe a compreensão mais perfeita da vontade
de Deus, através dos livros que deixou. Sofreu, como sofrem todos os apóstolos
da verdade. Foi escarnecido, vilipendiado, perseguido, mas, encouraçado pela
fé, nunca desertou o posto de honra, cumprindo sua elevada missão, ter dito,
porém, a última palavra.
Do mesmo modo, Roustaing, como continuador
de Kardec, é digno do respeito dos “espíritas
conscienciosos”, porque foi também um homem de excepcional valor moral e
intelectual, deixando, em “Os Quatro Evangelhos”, a prova do seu amor à
doutrina de Jesus, ali t explicada, com amplitude, em espirito e verdade.
Roustaing deve ser estudado sem prevenções, mas com boa
vontade e disposição serena. Sem tolerância nem humildade, sem amor nem caridade,
o Espiritismo terá, a sobressaltar lhe o programa de ação evangélica, grupelhos
de sectários, imbuídos do mesmo dogmatismo negativista que levou a ruina outras
religiões.
“Pode e deve a criatura
ser tolerante em face das opiniões alheias por mais opostas que sejam às suas
próprias; ela (a tolerância) prescreve o respeito às crenças, aos gostos e tendências
dos outros; porém, a ninguém impõe o silêncio diante do que lhe desagrade, ou
seja compreendido de outro modo. Ao contrário, respeitando o indivíduo,
inspirado pela bondade e pela justiça que ela em si contém, a maneira por que
os outros exteriorizam seus sentimentos, a tolerância o obriga a considerar os
outros como a si mesmo e a fazer-lhes tudo aquilo que lhes possa convir. Ora, o
que convém a todo ente humano é aprender, progredir, evoluir espiritualmente, o
mais rápido possível. E a tarefa dos que mais sabem é, ou deve ser, ensinar aos
que sabem menos e a dos que mais bondade possuem dar lições praticas dessa
bondade, para que os seus inferiores tenham um guia que lhes indique de que
maneira devem proceder para também subir”. (Aguarod, "Grandes e pequenos
problemas", págs. 100/1).
O que primacialmente nos interessa a todos não é discutir
se Jesus teve “corpo fluídico” ou “corpo carnal como o nosso”, durante sua passagem
por este planeta, embora seja assaz conhecida a expressão de Paulo aos Coríntios,
de que “nem toda carne é a mesma carne”.
Há tempo para chegarmos lá. Em relação ao que nos falta aprender, nada ainda
sabemos. Precisamos, sim - e os fatos atuais o comprovam - é de nos
evangelizarmos, estudando em vez de discutirmos, perdoando em vez de
condenarmos, pesquisando, primeiramente em nós mesmos, as imperfeições e lacunas
que julgamos existir em nossos semelhantes. Toda essa grita se faz porque está
sendo negligenciado o estudo metódico e atento dos Evangelhos. As censuras, as polêmicas,
as discussões podem satisfazer à vaidade de alguns homens, porém, ferem a
doutrina codificada por Allan Kardec e colidem com os preceitos de paz, amor e
caridade que constituem a palavra de ordem de Jesus. Persistir nessa atitude
anti-espirita será favorecer a negregados desígnios dos inimigos gratuitos que
o Espiritismo tem, na terra e no espaço.
Em vez de dissenção, preguemos a união, porque a
família espirita é uma só, como uma só é a verdade. Só uma luta deve entusiasmar-nos:
a luta pelo bem, sem nos esquecermos, todavia, de que “a humildade é a fonte de todas as virtudes”.
Está-se procurando formar um
antagonismo que jamais existiu entre Kardec e Roustaing, no que diz respeito à
doutrina espírita. Desses que criticam e combatem “Os Quatro Evangelhos”
quantos já leram e compreenderam essa obra superiormente elaborada e
magistralmente desenvolvida'? O “ponto
nevrálgico” de toda essa questão é o “corpo fluídico”, que, no entanto, interessa
principalmente à parte científica do Espiritismo. Entre os espíritas, porém, é
avultado o número dos que nunca leram todas as obras de Kardec e dos que, em,
tendo lido algumas, não assimilaram seus ensinamentos. Entretanto, discute-se,
faz-se bulha, põe-se em triste evidencia a falta de orientação verdadeiramente
espirita.
Sempre que houver algo de difícil
compreensão para nós ou aparentemente absurdo, meditemos, pedindo a Jesus que
nos ilumine entendimento. Nada se deve negar “a-priori”, porque muitas vezes
poderá suceder seja nosso o erro, por não havermos ainda alcançado a maturidade
intelectual e espiritual adequada para interpretá-lo acertadamente. Devemos não
esquecer que “acima de tudo está a
vontade superior, que pode ou não, em sua sabedoria, permitir uma revelação".
(Kardec, “Obras póstumas”).
A melhor maneira de seguir as instruções de Allan
Kardec está em exemplificar a doutrina que ele codificou, tendo por norma invariável
este seu lema “Trabalho, Solidariedade, Tolerância”-
que muitos de seus pretensos defensores parecem desconhecer. A obra de Roustaing,
pode, sem favor, ser incluída entre aquelas de Kardec, Léon Denis, Camille
Flammarion, Gabriel Delanne, Ernesto Bozzano, etc., opimos (excelentes) frutos de uma falange de
trabalhadores assistidos pelos mensageiros do Cristo. Torna-se necessário que os
espíritas sejam, pelo menos, espíritas, "espíritas conscienciosos",
no dizer de Kardec, abandonando ideias sectárias, sufocando e destruindo em si
tendências dogmáticas, jugulando inferiores impulsos que a doutrina desaconselha,
se não quiserem ser apenas, como disse Jesus, “sepulcros caiados de branco por fora”.
Somos todos Irmãos, devendo-nos auxílio
reciproco. Se Jesus disse que a ninguém viera julgar, porque só Deus julga,
porque pretendermos nós, os humanos, que nada valemos, ser maiores que o Divino
Mestre? "Não julgueis a fim de não
serdes julgados; porquanto sereis julgados conforme houverdes julgado os outros;
com a medida com que medirdes sereis medidos. Como é que vês um argueiro no
olho do teu irmão e não percebes a trave no teu?" (Mateus, Vil, v. 1-3)
Os que procuram perturbar a paz do
ambiente espirita atacando Roustaing a pretexto de defender Kardec, como se
este houvera sido vítima de algum agravo, estão fora da doutrina, são contra
ela, porque não a cumprem. Os piores inimigos do Espiritismo são aqueles que estão
dentro dele, dizendo-se espíritas sem cumprir-lhe os princípios essenciais. Já
é tempo de se suspender tão inglória conduta. Preguemos todos o Evangelho e não
a cizânia, porque quem estiver em erro por ele responderá. Deixemos em paz o
corpo de Jesus; atentemos, porém, para a sua doutrina de amor e caridade, porque
dela é que virá a nossa salvação moral. Está em “O Evangelho segundo o Espiritismo”:
“Não anatematizeis os que não pensem como
vós". Porque não se procede assim? Nessa mesma obra confortadora e
sublime, escrita por Allan Kardec, lê-se este conselho amigo de “O Espírito de
Verdade”: “Espíritas! Amai-vos, este o primeiro
ensinamento; Instrui-vos, este o segundo.”
Em “Obras póstumas” também de
Kardec, encontram-se estas outras palavras, tão oportunas para os que falseiam
o espírito da doutrina: “O Espiritismo
proclama a liberdade de consciência como direito natural; reclama-a para si e
para todo o mundo, respeita a convicção sincera e pede reciprocidade.”
“Se
um cego se faz guia de outro cego, cairão ambos no fosso." (Mateus,
XV. v. 14).
Para esses “cegos” devemos implorar a misericórdia do Pai. São almas que se afastam
do caminho iluminado dos Evangelhos, ovelhas que se transviam.
“Guias
cegos, que coais um mosquito e engolis um camelo”, meditai.
Nenhum comentário:
Postar um comentário