Bilhetes
G. Mirim (Antônio Wantuil de Freitas)
Reformador
(FEB) Dezembro 1945
A política, sob a capa da razão, cava num
palmo de terra, existente entre dois irmãos, a sepultura de ambos. Não sei
onde li essa opinião. Creio que em Camilo. Li-a na minha mocidade. Agora, já na
velhice, quando me sinto aproximar do dia em que deverei entregar os ossos à
sepultura, nesse hábito que os velhos temos de recapitular as lições recebidas
na longa peregrinação terrena que palmilhamos, é realmente doloroso
observarmos, assim, quando já se tem o pé na cova, que os homens são sempre os
mesmos, as eternas crianças que só veem pelo prisma acanhado do direito
individual, sem qualquer respeito pelo direito do próximo ou da coletividade e
sem sequer vislumbrarem as consequências futuras do ato irrefletido do
presente.
A
ideia que tiveram os nossos irmãos católicos - que se deixaram levar pelo clero
sempre ambicioso das posições do mundo - de se organizarem em Ligas (1) e de apresentarem exigências aos candidatos, refletirá mais tarde,
com todas as consequências, não só por dividirem elas os próprios meios
católicos, como por estimularem a criação de partidos políticos dentro de todos
os meios religiosos e anti religiosos do Pais.
A
política religiosa da Idade Média renasceu no Brasil. Assistimos ao mais
vergonhoso de todos os absurdos: púlpitos transformados em tribunas de
meetingueiros, templos a servirem à deusa Política, pastores a dispersarem
ovelhas.
E
tudo isso na presença silenciosa dos "santos" que ornavam os altares!
Os
políticos, porém, acharam belíssima a ideia do nosso clero. É possível, mesmo,
que os vencedores ofereçam aos padres o prêmio a que fizeram jus. Prêmio que eles
esperavam obter na certa, porque aderiram, de uma só vez, aos dois candidatos
em evidência, aos que poderiam ser eleitos com ou sem auxílio de partidos
religiosos, mas o que se observa é que o meio católico se dividiu, que a
religião foi prejudicada na sua parte espiritual e que o exemplo estimulante aí
ficou para as futuras lutas.
O
clero jogou na certa, como sempre. Não lhe comove a luta entre os seus adeptos.
Só lhe interessa a consecução dos seus planos: O poderio material, esse mesmo
poderio que sempre o preocupou desde a aliança com Constantino, no século IV, esse
mesmo poderio de que tanto abusaram na Rússia dos czares, ao ponto de o próprio
povo se levantar contra os opressores de todos os matizes.
Lutas
religiosas; lutas que dividirão os filhos da mesma Pátria! Os quadros da
História se nos apresentam apavorantes. Só os cegos, condutores de cegos, não
têm olhos para ver! Que importa, porém, ao clero estrangeiro que nos domina, o sofrimento
dos nossos filhos? Que importa, mesmo, que um ou outro sacerdote seja
sacrificado?
Se
não podem dominar com o Cristo, porque este já os abandonou há séculos,
dominarão com César...
A
Igreja já não tem mais autoridade espiritual sobre os seus adeptos. Os
intelectuais já a têm como organização política, com finalidades puramente
humanas.
Os
seus dirigentes paganizaram o Cristianismo, corromperam os ensinamentos do
Nazareno, menosprezaram lhe os exemplos, renegaram lhe o Evangelho, abandonaram
a cruz e transferiram-se para os salões dos Césares de todas as nações.
Os
cristãos, porém, aqueles que creem nas palavras do Messias, aqueles a quem os
senhores de tonsura chamam feiticeiros, loucos, demoníacos e exploradores da
credulidade pública, esses continuam ouvindo e honrando as recomendações do
Mestre: "O meu reino não é deste mundo.”
(1) Do Blog: Chamem de ‘bancadas’ e a linguagem bem como o texto se
atualizam... Antonio Wantuil foi presidente da FEB por 27 anos.
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