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sexta-feira, 22 de maio de 2020

Ser ou não ser...



Ser ou não ser...
por José Brígido (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Julho 1946


            Não há nada que mais descoroçoe um Espírito do que a dúvida. Aquele que duvida, experimenta todas as torturas infernais. Torna-se presa da imaginação exacerbada, transforma em montanhas míseros grãos de areia, apavora-se diante de anãos, como se estes fossem gigantes... Espanta-se com a própria sombra, que a luz bruxoleante duma vela faz adquirir proporções enormes... Mergulha na treva das conjeturas incongruentes e supõe gritar, quando apenas sua garganta emite sons abafados e ininteligíveis...

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            A dúvida tem feito maior mal à Humanidade do que a estupidez humana... Ele destrói a tranquilidade, envenena a alma, subverte o amor, transformando-o em ódio, e faz do homem um monstro. De Tomé, que duvidava estivesse diante do Cristo ressurgido, a Hamlet, espicaçado pela incerteza do “ser ou não ser”, dista um passo. A dúvida é servida pela dor moral e pelo despeito. A inconformação arma o braço do homem que vacila, sob a influencia da incerteza. Duvidar é descrer; descrer é abjurar a vida, renunciando ao que ela possuí de mais belo e sagrado: a paz de espírito.

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            Crer é confiar. A descrença vive parede e meia com o desespero. O que sustenta a ilusão de felicidade que o homem precisa para suportar as asperezas da vida é a esperança. Não há esperança no coração dos que duvidam, como não pode haver confiança no coração dos que descreem. A descrença não é apenas um estado d’alma: é um estado mórbido. O homem, partícula ínfima do cosmos, só é feliz quando se põe em conformidade com o ritmo universal, já dizia Bossuet: “O Espirito é feito para conhecer a verdade.”
           
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            Tudo na Natureza é harmonia. Tudo obedece a leis sábias e imexíveis, que transcendem o entendimento humano. Essa incapacidade de compreender exaspera o homem divorciado da harmonia cósmica. Como não compreende, prefere negar a curvar humildemente a cabeça ante o Incompreensível. A sua negativa, porém, não tem força para alterar o todo das leis universais... Apesar disto, atira-se às vezes contra a Verdade, para concluir, paradoxalmente, com Lange, que há uma “psicologia sem alma...”

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            Toda negação provém da dúvida. É ela que retarda o advento da felicidade humana, porque corroí os sentimentos mais nobres do homem. Aquele que duvida é como se fora cego, surdo e paralítico: não vê, não ouve, não caminha... Acorrenta-se a convicções absurdas e para no meio da estrada, enquanto os outros, estugando o passo, avançam, progridem, evoluem ...

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            Uma “psicologia sem alma” é como uma “filosofia sem sabedoria”, um corpo sem vida. Hoje, não mais é possível perder tempo com jogos de palavras porque os problemas psíquicos já encontraram, em muitos casos, explicação racional, O “credo quia absurdum” cedeu lugar à meditação arejada pelo raciocínio liberto de dogmas, de preconceitos, de´atitudes espirituais instáveis, porque fundamentadas no artifício. Para compreender melhor, o homem deve apelar-se na lógica, pois esta nos ensina a alcançar a plenitude da razão pela justeza das conclusões a que induz o raciocínio. Onde a razão toma pé, a dúvida deserta, Tanto assim que, segundo Cícero, “assim que a razão conhece a verdade, a alma prende-se a ela e ama-a”.

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            O mundo se contorce de dores e se agita, num desespero interminável, porque ainda duvida. E há de permanecer vacilante como Hamlet, fitando a macabra caveira da incerteza, enquanto não permitir que a luz da Verdade lhe penetre o entendimento. E assim, com voz soturna, continuará dizendo, sombriamente, num solilóquio arrepiante: “Ser ou não ser... eis a questão...

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