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quinta-feira, 25 de maio de 2017

Mediunidade e Trabalho


Mediunidade e Trabalho
Indalício Mendes
Reformador (FEB) Julho 1954

Nunca é demasiado insistir sobre a necessidade de incrementar o trabalho de desenvolvimento mediúnico. Ele pode ter influência marcante na vida individual, porquanto, desde que o médium se apresente em condições de exercer atividade, diante dele se abrirá vasto campo de realizações fecundas. A retenção de mediunidades, isto é, a falta de exercício do dom mediúnico, pode trazer perturbações diversas, inclusive de natureza nervosa. Via de regra o médium é indivíduo de grande sensibilidade psíquica. Se adquire o domínio relativo da força que possui, pode orientá-la de modo a alcançar os resultados mais produtivos e benéficos. Se se desinteressa desse poder, ele acaba por lhe prejudicar o equilíbrio nervoso e pode trazer consequências danosas a todo o organismo.

A situação de médium independe de crenças e opiniões, bem como da condição social. Naturalmente, o médium que se vota a uma vida sadia, moralmente elevada, inclinado à prática de ações louváveis estará naturalmente protegido de surpresas desagradáveis. A mediunidade é um fluido, admitamos, como a eletricidade: conhecido, mas de difícil definição. O médium atua como um instrumento, como uma antena, capaz de captar todas as manifestações psíquicas que lhe sejam afins. Nestas condições, precisa de estar sempre preparado para realizar espontaneamente a seleção das influências que o acometem. Desde que se desenvolva suficientemente e se oriente de modo superior, dará mais facilmente passagem às manifestações de Espíritos de boa moral do que a Espíritos ainda em grau evolutivo inferior. Ninguém desconhece, entre os espiritistas, que “os Espíritos exercem sobre o mundo moral e mesmo sobre o mundo físico uma ação incessante. Atuam sobre a matéria e sobre o pensamento e constituem uma das potências da Natureza, causa eficiente de uma multidão de fenômenos até então inexplicados ou mal explicados e que não encontram solução racional senão no Espiritismo.” (“O Livro dos Espíritos” - Introdução.)

Ao contrário do que muitos opinam, devem ser cultivados todos os aspectos da mediunidade. Não há razão para se desprezar o desenvolvimento da mediunidade relacionada com os fenômenos físicos. Ela é de enorme utilidade e importância. O que se deve evitar é a preferência pelos fenômenos, com o abandono da parte moral, indispensável à melhoria espiritual dos indivíduos. Qualquer setor da mediunidade é digno de estudo e de cultivo: a mediunidade curadora, a mediunidade psicográfica, a mediunidade intuitiva, a medi unidade auditiva, a mediunidade mecânica, a mediunidade de efeitos físicos (incluindo-se neste ramo os trabalhos de materialização e desmaterialização, de desintegração e reintegração da matéria, de transportes, de voz direta, de escrita direta, etc., etc.) .

Evidentemente, qualquer trabalho de natureza mediúnica deve ser realizado com o maior escrúpulo, com todos os cuidados possíveis, além de um serviço de controle efetivo, que não dê margem a dúvidas e contribua para a obtenção de elementos progressivamente mais amplos de verificação. Julgar-se que tudo já esteja feito ou descoberto no setor do Espiritismo é parar no meio do caminho. O Espiritismo é, por excelência, uma doutrina evolutiva. Não se prende a dogmas estreitos, não tem a presunção de haver já conquistado a plenitude dos conhecimentos, não presume haver dominado a verdade inteira. Precisamos convir que a vida não cessa, assim como não se detém o impulso investigador da Humanidade. O muito que já se conseguiu até hoje talvez nada seja diante do que ainda aguarda os homens do futuro.

O dom mediúnico é de excepcional importância no porvir da Humanidade. Impõe-se, todavia, que se desenvolva metodicamente, que possa ir, ainda que lentamente, ampliando sem interrupção seu campo de ação. Nada se perde, pelo contrário, tudo se terá a ganhar, com a persistência e a boa vontade no progresso do trabalho espiritual.

As sessões mediúnicas familiares são úteis, desde que à sua testa se encontre alguém com real capacidade moral e suficiente experiência para controlar e orientar os trabalhos. Sem se afastar da ambiência evangélica, podem ser efetuados todos os serviços relacionados com as experiências mediúnicas, sejam estas de que natureza for.

          O trabalho de caráter cientifico não é incompatível com o ambiente religioso, porque, na realidade, os dois se completam. Para muitos, o caráter religioso de uma reunião espírita (ou de qualquer outro credo) prescinde de experimentações científicas, porque religião subentende revelação. Não devemos, nós, os espíritas, adotar semelhante atitude. As experimentações científicas estão perfeitamente acordes com o espírito religioso, porque os homens jamais poderiam entregar-se a investigações no ramo da Ciência sem o beneplácito das forças espirituais superiores. E cada conquista científica não deixa de ser uma revelação e essa revelação, a História no-Ia mostra, muito embora inicialmente combatida, acaba por ser aceita no mundo e passa a constituir um dos elementos da vida humana, caindo na rotina.

Sabemos que muitas conquistas da Ciência foram impugnadas por credos mal esclarecidos. O clero se insurgia, acusando-as de obras do demônio, mas o tempo acabou por destruir inteiramente os argumentos cavilosos de pretensos donatários da verdade absoluta... Olhemos para o passado. Se hoje a Humanidade se debate no espiritismo e no materialismo, devemo-lo à diretriz defeituosa daqueles que, em nome de Deus e de Jesus, pretenderam, a ferro, fogo e sangue, cortar os voos da inteligência humana, esquecidos de que, em muitos dos heróis da Ciência, vicejava a mediunidade mais bela e fecunda. Sacrificaram corpos, mas não puderam destruir as almas. O pior é que se falava em nome de Deus para consumar tragédias que hoje atestam a falta de substância moral daqueles que tentaram infrutiferamente jugular o avanço da Ciência.

O Espiritismo não está nesse molde. É Ciência-Religião-Filosofia. Cresce em todos os sentidos porque sua doutrina, evolucionista por excelência, ampara o homem, esclarece-o, encaminha-o e lhe dá a força moral de que necessita na vida humana, para a compreensão de seu importante papel na Terra e na vida espiritual.

Mesmo em seu seio, o Espiritismo tem de progredir sempre, porque esta é a sua lei, esta é a determinação de sua própria origem. Allan Kardec, o grande mestre, codificou os ensinamentos transmitidos pelos Espíritos. Em seguida, Jean-Baptiste Roustaing, também assistido por forças espirituais respeitáveis, trouxe novos e preciosos esclarecimentos, que reuniu em notável obra denominada “OS Quatro Evangelhos”.

Temos; pois, como pedestal do Espiritismo os livros notáveis de Kardec: “0 Livro dos Espíritos”, “O Livro dos Médiuns”, “O Evangelho segundo o Espiritismo», “A Gênese”, “O Céu e o Inferno”- além do seu ingente trabalho como desbravador, numa época em que ainda era forte e perigoso o poder do clero católico no mundo. Depois, surge Roustaing, como díscípulo de Kardec, digno também do maior respeito, com os ensinamentos recebidos do Alto pela médium ColJignon. Então, passaram “Os Quatro Evangelhos” a constituir uma obra também indispensável ao estudo do Espiritismo, da qual testemunhou A11an Kardec (“Revue Spirite”, Junho de 1867): “Esta obra compreende a explicação e a interpretação dos Evangelhos, artigo por artigo, com o auxílio de comunicações ditadas pelos Espíritos. É um trabalho considerável e que tem, para os espíritas, o mérito de não estar em contradição, por qualquer dos seus pontos,  com a doutrina ensinada no “O Livro dos Espíritos” e no dos Médiuns. As partes correspondentes às de que tratamos n” O Evangelho segundo o Espiritismo” o são dum sentido análogo. Ai está a palavra de Kardec, que dispensa, por sua autoridade, maiores comentários. Assim como as obras do Codificador foram devidas a excelente e idôneo trabalho mediúnico, também “Os Quatro Evangelhos”, recebidos por via idêntica, mediante um médium autorizado, como Mme. Collignon, tiveram em Roustaing o apoio de que necessitavam no ambiente terreno em que apareceram, já que essa grande figura do movimento espírita era pessoa de absoluta inteireza moral, possuidora de sólida cultura e perfeitamente identificada com a essência e os objetivos da doutrina que professamos.

Quaisquer que sejam as modalidades do mediunismo, todas revelam a ação formidável dos Espíritos, que, se mais não fazem, é porque nem sempre podem contar com médiuns perfeitamente à altura dos trabalhos, médiuns que se encontrem realmente integrados em sua importante missão terrena. Isto põe em relevo a necessidade primordial de serem dispensadas atenções cada vez maiores aos médiuns, para que eles possam, com segurança e orientação superior, adquirir as condições imprescindíveis ao trabalho traçado no plano invisível.

Para que o esforço mediúnico ofereça resultados excelentes devem os médiuns encará-lo com a máxima seriedade possível, escorados no exemplo evangélico e nos princípios da doutrina espírita. Se, em qualquer atividade, a persistência, o esclarecimento e a boa vontade obram prodígios, no campo da mediunidade, então os efeitos são insofismavelmente magníficos. Portanto, desenvolver o trabalho mediúnico, seguindo os métodos prescritos pelo Espiritismo, consoante Kardec, é estabelecer bases sólidas para farta e valiosa colheita futura. Os médiuns, pelo fato de serem dotados dessa valiosa faculdade, devem aceitar com coragem e fé a missão que lhes for destinada, buscando cumpri-la com devotamento, santificando-a pelo exemplo e pela
resignação em face dos obstáculos comuns ao itinerário humano. Não há dúvida de que o mediunismo não necessita de estudos para desabrochar no espírito dos seres humanos. Todavia, o ideal será que o médium estude, enriqueça os seus conhecimentos e leve uma vida simples e pura, fugindo o mais possível do que possa contribuir para o enfraquecimento de suas reservas morais.


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