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sábado, 28 de junho de 2014

Um médium chamado Gandhi



Um médium chamado Gandhi
José Brígido  /   (Indalício Mendes)
Reformador (FEB) Maio 1962


            Este século teve a glória de possuir, entre os seus homens mais ilustres, a figura quase lendária de Mohandas Karamchand Gandhi, nascido no século anterior, em Porbamdar, Índia, a 2 de Outubro de 1869.

            Sua vida foi extraordinária e mais extraordinária ainda a sua pureza de sentimentos, seu amor extremado à verdade, seu horror à mentira sob qualquer forma e à violência direta ou indireta, clara ou dissimulada.

            Desde cedo, Gandhi sentiu manifestações de mediunidade e, cedendo à «pequena voz interior" que falava a seu espírito (assim ele a denominou}, tornou-se o Guia de milhões de hindus e muçulmanos e a maior força espiritual do século XX. Suas ideias, perfeitamente compatíveis com as do Espiritismo, apontam-no como um dos Espíritos superiores destinados à Terra para a grande e áspera missão de Paz. Foi ele, efetivamente, um "Mahatma" (Alma Grande), pela bondade inata de sua personalidade, assim como pelo profundo senso de justiça verdadeira e de fraternidade geral.

            Como não é nosso objetivo, aqui, oferecer ao leitor largos traços biográficos de Gandhi, trataremos de expor alguns fatos positivos da mediunidade desse homem notável. Em suas confissões, disse que esteve muito longe de ser um menino modelo. Envolveu-se em complicações criadas por um mau companheiro, que ele, jovem franzino, admirava por ser robusto e audaz. Pode, contudo, como se verá adiante, superar o obstáculo. A "voz interior” advertia-o ou estimulava-o,  de quando em quando, porque sua alma era terreno adubado e apto a acolher as sementes prodigiosas lançadas pela “pequena voz interior",  que outra coisa não era senão a voz do Espírito que o assistia, lembrando-lhe, nos primeiros anos da nova encarnação, os compromissos naturalmente assumidos antes, quando ainda no mundo espiritual.

            Desde pequenino, Gandhi recebia de sua mãe, Putlibai, uma orientação espiritualmente acertada, e seu pai, Kaba Gandhi, também tinha exemplos dignos de serem por ele imitados. Foi homem caridoso, solícito e servia de conselheiro a quantos, em dificuldade, necessitavam também de uma palavra serena, justa e adequada a cada caso. Gandhi considerava seu pai um sábio. Tinha razões ponderáveis para isso.

            Putlibai, cheia de doçura, incutia nos filhos os melhores sentimentos.

            - Eu tinha apenas quatro anos - relembrava o Mahatma - e já sabia repetir estas palavras, que minha mãe me ensinava, fazendo repeti-las: “Serei livre, serei corajoso, direi sempre a verdade! Não farei mal a quem quer que seja. Farei sempre o bem!"

            - Assim, afirmava ela, vocês aprenderão, meus filhos, a arte de se governarem a si mesmos.

*

            Muito tímido e frágil, Gandhi tinha medo dos outros meninos. Era dominado por um acanhamento invencível diante de qualquer pessoa.

            Foi nessa época que a sua mediunidade surgiu.  E ele esclarece:

            - A pequena voz interior começara a se fazer ouvir.

            Pôs-se a indagar as razões que proibiam contato com os párias, os “intocáveis”. Considerava absurda a discriminação e ouviu da “pequena voz interior" palavras de reprovação enérgica ao tratamento desigual dispensado a esses pobres seres humanos, vítimas de tremendos preconceitos.        

            Cada vez mais “a voz" se impunha. Na escola havia alguns “intocáveis". Um dia, ele se aproximou furtivamente dum rapazinho pária, que lhe parecia o mais amável de todos, e encostou a medo o dedo em seu braço.

            - Como o meu coração pulsou forte! Acreditei haver praticado um ato de bravura, pois a proibição era terrível. Sentia, porém, como se houvesse reparado uma injustiça - disse o famoso Mahatma.

            Certa vez, pôs os olhos sobre um livro que seu pai deixara sobre a mesa. Folheou-o e, depois, leu-o. Sentiu imensa alegria. Era a história de um grande herói, a história de Shrawana.

            Ela exerceu marcante influência em seu destino, daí por diante. Achava-se empolgado pelas aventuras de Shrawana, quando ouviu de novo a “pequena voz interior" manifestar-se:

            - Eis aí um exemplo que deves seguir! - murmurou ela. Eis um exemplo a seguir! Que herói! Que devotamento a seus pais! Você será capaz de fazer a mesma coisa?

            Mais tarde, o pai levou-o ao teatro e Gandhi viu um drama que envolvia a vida de outro herói: Harichandra.

            A "pequena voz interior" fê-lo ouvir outra vez:

            - Por que todos os seres não são também tão direitos quanto Harichandra? Por que você mesmo não se torna qual Harichandra?

            E acrescenta Gandhi, comovido pela reminiscência: “Noite e dia a pequena voz interior insistia em fazer de mim um herói."

*

            Em determinada ocasião, o menino Gandhi, dominado pelo mau amigo a que acima nos referimos, furtou de um seu tio pequena quantidade de fumo. Ficou decepcionado ao fumar, declarando-o ao amigo. Depois, entretanto, perguntou a si memo:

            - Pobre pequena voz interior, por que não te obedeci?

            Durante um dia inteiro ouviu desta severas recriminações:

            - Que vergonha, que vergonha para ti, Mouhen!

            - Que fazer, pequena voz - respondeu ele. Que fazer?

            Chegou, com o amigo, ambos desesperados, a pensar no suicídio,.

            Em outra ocasião, desejando salvar o mau amigo, que contraíra um débito de vinte e cinco rúpias, apossou-se de um bracelete de ouro maciço, pertencente a seu irmão. E correu a saldar a dívida. Em suas memórias, com admirável sinceridade, diz Gandhi: “Essa ação vil exasperou a voz interior, que não mais me deixou em repouso.

            - Como é que você, você que ama de tal maneira a verdade, se tornou um ladrão? Como poderá doravante ver seus pais sem corar? Como poderá entregar-lhes a fronte para beijar, todas as tardes? Que vergonha, que vergonha para você!"

            - Que devo fazer, pequena voz, que devo fazer? - indagou, aflito. Tu tens razão, eu me sinto humilhado.

            É fácil perceber-se a luta que “a pequena voz" sustentava para evitar a queda irremediável ao inexperiente garoto. Gandhi, envergonhado com seus deslizes, escreveu longa confissão e entregou-a ao pai, certo de que seria por ele amaldiçoado. Mas tal não se deu. Kaba Gandhi compreendeu que aquelas lágrimas que se despejavam dos olhos tementes do filho eram honestas. Em vez de esmagá-lo com críticas ferinas, aconchegou-o ao peito, curando-lhe as chagas da alma com o bálsamo do amor, dando-lhe o estímulo de que precisava para tornar fecundo o arrependimento. Seu pranto caíra sobre a carta do filho amado.

            - Depois disso, confessou Gandhi, certifiquei-me de que o amor é arma mais possante do que a cólera. Isso jamais esqueci...

*

            Poderíamos ir mais longe, demonstrando a ação benéfica da “pequena voz interior", do Espírito amigo que acompanhava os passos daquele que seria, em futuro não muito remoto, o símbolo da Paz, do Amor e da Fraternidade, pregando, com risco da própria vida, a “doutrina da não-violência", que não é uma doutrina banal, mas um compromisso sério e difícil, que exige imenso sacrifício, excepcional coragem e fibra fora do comum.


            - A pequena voz interior havia vencido... concluiu Gandhi - e me restituiu a paz de que eu tanto necessitava! 

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